Por: Marcelo Nakagawa

Vejo o agora ex-diretor no hall de entrada do prédio. Parece perdido mesmo tendo trabalhado tantos anos ali. Ajudou, inclusive a construí-lo (o prédio e o negócio). Mas agora estava lá, frágil e desorientado. Caminhava claramente em algo que já não tinha mais chão e rumava para algum lugar sem direção. Cumprimento-o pelo nome, mas ele, ou não me ouviu, ou olhou para alguém invisível ou ainda ouviu o seu nome, mas não quis escutá-lo, não naquele local, onde alguns dias antes era cumprimentado por onde passava.

Dias depois, vi o agora ex-gerente de outra empresa. A desorientação nos olhos era a mesma que o da ex-assistente que também havia perdido o emprego em outra organização. Havia algo de não acreditar no que estava acontecendo. Algo violado tão verdadeiramente narrado em “Ao arrancarem meu crachá, senti como se estivessem arrancando a minha pele” em que a jornalista Claudia Giudice fala do seu 13 de agosto profissional. E é esta fragilidade que coloca o (ex)diretor e a (ex)assistente em iguais condições.

Para muitos, ser demitido é ver uma parte de você ser assassinada. Daí o clima de velório. E outros tantos acreditam realmente nisso. Que morreram para a vida profissional. E enquanto não encontram outra vaga, só confirmam a sua morte.

Enquanto alguns acham (e encontram) o seu fim, outros encaram a demissão como uma oportunidade de ressureição ou reencarnação, dependendo da crença. Em alguns países asiáticos, crise e oportunidade são, sabiamente, escritas com os mesmos ideogramas. Da mesma forma, o deus indiano Shiva é o que destrói para construir algo novo.

Neste contexto, encarar a demissão como uma oportunidade é se preparar para um futuro em que haverá cada vez menos vagas de empregos e relações empregatícias menos duradouras.

Isto já vinha acontecendo em setores mais operacionais em que operários eram substituídos por robôs, bancários por ATMs ou mesmo a tia do cafezinho trocada por aquelas famigeradas máquinas de café. Mas agora as novas aplicações de comunicação, inteligência artificial, big data, realidade virtual e aumentada, mobilidade, aprendizagem de máquina, IoT e robotização também vem assustando (e deveriam assustar mesmo) profissionais detêm grande conhecimento acumulado para continuarem empregados. Por ter uma solução automatizada, o Contabilizei cobra 10% do valor cobrado por boa parte dos contadores. O Eyenetra coloca em centavos o custo de um exame oftalmológico. E se acha que falar com advogados é caro e complexo, a Reglare reduz (praticamente extingue) a necessidade de tê-los em processos de análise (e tomada de decisão) de processos judiciais e administrativos.

E os gerentes de banco irão fazer o quê no futuro (agora) em que robôs podem controlar, analisar e tomar decisões de investimento, não de uma dezena, mas de milhões de clientes? E ainda vai sobrar para mim, já que, cada vez mais faz menos sentido ter um professor falando (de algo já disponível em algum lugar) em uma sala de aula em que cada participante tem suas demandas, interesses, horários, formas de aprender.

E se não acreditar que no futuro teremos carros autônomos, sistemas que entendem eufemismos, idiossincrasias e metáforas complexas e universidades sem professores, é melhor refletir sobre tendência de juniorização das organizações. Se você não é jovem, já percebeu que a pirâmide etária da sua empresa vem se achatando velozmente. A alegação é que os jovens são mais inovadores, criativos e empreendedores. Mas no final do mês, eles ganham menos e ajudam a aumentar (na situação atual, a manter) as margens de lucro da organização. E em algum dia, ou você ajuda sua empresa a obter melhores margens ou se torna um custo desnecessário. Mas e o conhecimento acumulado? Perguntarão os mais experientes…

A inteligência artificial do carro autônomo do Google, o sistema Watson da IBM ou ainda os graduados pela École 42 responderão que o este conhecimento já está acumulado, parametrizado, processado e que pode ser recuperado, reutilizado e combinado em uma fração de segundos e na mesma proporção em custos.

Por tudo isso, se você tem um crachá hoje, a chance de perdê-lo para a tecnologia ou idade só vai aumentar. Antes de parecer um zumbi profissional cuja pele foi arrancada, reflita quem você é, o que gosta e faz bem, que tipo de negócio poderia ter demanda a partir disso e comece a interagir com as pessoas, potenciais clientes e parceiros. Talvez não precise criar o seu emprego agora, mas quando precisar, o melhor de você estará lá… te esperando.

Sim, você vai precisar criar o seu próprio emprego
Marcelo Nakagawa é Professor de Empreendedorismo e Inovação do Insper e Head de Empreendedorismo da FIAP

 

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